𝒸𝑜𝓁𝑜𝓇𝒾𝓃𝒹𝑜 𝒫𝑜𝑒𝓈𝒾𝒶𝓈

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Um sujeito Azarado

Encanta-me a cultura E as rimas do meu sertão, De um povo forte e valente Que carrega no coração A coragem de ir embora Pra buscar vida melhor Mesmo longe do torrão. Lá na minha região Era costume acontecer: Filho da terra sair Sem saber se ia vencer, Pegava rumo a São Paulo Pra tentar a sorte grande E depois enriquecer. O filho do seu José Era danado de falar, Mas tinha fama na vila De viver a se azar. Mesmo assim trabalhou duro Um ano inteiro na roça Pra passagem comprar. Comprou três mudas de roupa, Sapato novo e toalha, Arrumou sua pequena mala Sem medo de qualquer falha. Mas de tanto se despedir Quando foi pegar o ônibus Já perdeu foi a batalha. Xingou logo o vendedor Sem o homem ter culpa não, Pois ser azarado assim Já era sua tradição. Sem saída resolveu Viajar no velho pau-de-arara Seguindo pela imensidão. Quando jogou sua mala Os passageiros falaram: — Vixe, até tu vai também? Agora foi que lascaram! Se esse cabra for com nós Essa lata velha quebra Antes mesmo de chegarmos! Ele então respondeu Com um sorriso meio torto: — Devagar se vai ao longe, Não precisa desse alvoroço. Pra fazer essa viagem Trabalhei foi um ano inteiro Com suor no meu pescoço. Entraram logo em oração Pra quebrar tal maldição, Mas Deus foi misericordioso E segurou a condução. A viagem foi comprida Mas chegou sem mais problema Na grande capitalão. Lá em São Paulo o coitado Sentia frio de lascar, Acostumado com o calor Do sertão a lhe abraçar. Toda noite na pensão Parecia que dormia Debaixo de um pé de pau no ar. Uma noite resolveu Ir dançar numa balada, Chegando lá viu uma moça Que lhe olhava animada. Ele logo se empolgou Pensando ter encontrado Uma linda namorada. Disse ele todo confiante: — Hoje estou foi arrumado! Com mulher bonita assim Já me sinto apaixonado. Quem sabe além do calor Eu ganho ainda um herdeiro Pra não viver mais gelado. Chegou cheio de charme Balançando o seu anel, Parecia um coronel Se exibindo no bordel. E sem muita cerimônia Falou logo pra donzela: — Eu te levo pro motel! Mas a sorte do rapaz Nunca foi muito exemplar, Foi passando logo a mão Onde não devia passar. E levou grande surpresa Quando foi então saber Com quem estava a paquerar. Não era moça formosa Como ele imaginou, Era um sujeito afeminado Que de mulher se fantasiou. O cabra ficou sem fala Pegou a mala nas costas E pro sertão regressou. E voltou foi caladinho Sem tocar nesse assunto, Pois melhor ser azarado Do que virar riso junto. Até hoje lá na vila Quando alguém lembra da história Ele muda logo o assunto.

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