𝒸𝑜𝓁𝑜𝓇𝒾𝓃𝒹𝑜 𝒫𝑜𝑒𝓈𝒾𝒶𝓈

terça-feira, 31 de março de 2026

Platéia invisível





Ela sonhava em ser escritora. Sonhava com sua biografia estampada nos outdoors da vida.

No espelho, fazia monólogos, e apenas ela podia sentir sua angústia, sua alegria, retratadas por si mesma nesses lindos monólogos.

Não dá para fingir que ela não se achava a melhor roteirista de si própria.

Encantava-se com o som da chuva, o cheiro de terra molhada e o voo das borboletas, que deixava o jardim mais colorido.

Ela é feliz sem plateia. Não precisa que ninguém a elogie. É mais feliz nesse mundo que só ela consegue enxergar tão profundamente.

E, todos os dias, ela escreve, apaga e reescreve seus lindos monólogos.

E quem vai apresentá-los?

Tem dúvidas de que ela é capaz de emocionar  seu espelho?



terça-feira, 3 de março de 2026

Entre Andares

 


Apertei o botão do elevador tentando parecer indiferente, mas sentia aquele olhar atravessar minha calma ensaiada. Ele estava ali, parado, com seus olhos verdes fixos em mim como se já me conhecesse.

Virei o rosto. Ajustei o cabelo. Observei o reflexo no espelho dourado do elevador. Ele continuava me olhando — sem pressa, sem vergonha, apenas certeza.

O elevador parou no quarto andar.

As portas se abriram lentamente. Era o meu andar. Eu poderia sair. Deveria sair.

Mas não saí.

Havia algo naquele silêncio que me prendia. Uma curiosidade perigosa. Um desejo ainda sem nome.

Então fiz o impensável.

Deixei meu corpo ceder.

Ele me segurou antes que eu tocasse o chão. Seus braços eram firmes, quentes, seguros. O perfume dele misturou-se ao meu, criando uma proximidade íntima demais para dois desconhecidos.

— Você está bem? — perguntou, a voz baixa, próxima ao meu ouvido.

Abri os olhos devagar, como se estivesse despertando. Sussurrei o número do meu apartamento.

Ele me carregou pelo corredor em silêncio. Cada passo ecoava como um segredo sendo escrito. Ao entrar, colocou-me cuidadosamente no sofá da sala.

Mas não se afastou.

Ficou ali. Perto demais.

Seus olhos percorreram meu rosto com intensidade, como se buscassem permissão. Meu coração batia rápido. O dele também.

Não houve discursos. Não houve promessas.

Houve apenas o silêncio carregado de intenção.

O primeiro toque foi hesitante. O segundo, inevitável.

E ali, entre o sofá e a respiração descompassada, nos entregamos à chama que havia começado dentro de um elevador.

Depois, veio o silêncio novamente.

Preparei café para quebrar a tensão. Ele vestiu a camisa branca com calma, como se quisesse gravar cada detalhe daquele momento.

Sentou-se e tomou o café devagar, até que esfriasse.

Eu observava cada movimento de seus lábios, tentando memorizar o que talvez nunca mais acontecesse.

Ele saiu pelo mesmo elevador onde tudo começou.

E ficou em mim.

No cheiro impregnado no sofá. No eco dos passos no corredor. No espaço vazio ao meu lado.

Desde então, todos os dias, aperto o botão do elevador no quarto andar com a esperança silenciosa de que as portas se abram…

E que aqueles olhos verdes estejam lá outra vez.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Lembranças Nossas


Hoje fui mexer no nosso baú de lembranças.

Você estava lá — nas fotos já embaçadas, comidas pelas traças.

Engraçado… você não mudou na minha memória.

Faz tanto tempo.

Acho que eu não estava preparada

para revirar o nosso baú de lembranças.

Doeu.

Deixei tudo lá, espalhado pelo nosso antigo quarto.

Tomei uma taça de vinho, sentada no sofá,

ouvi sua música preferida.

Chorei.

Adormeci.